Morte: uma tremenda “falta de absurdo”.
“Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe?”
Monólogo de Hamlet, Shakespeare, tradução de Machado de Assis.
Estou convencido que o único sentido da vida é a expressão do trágico.
Qual o valor da abelha colhendo pólen, do Sol coroando a assustadora madrugada, da onda que quebra uma única vez na areia, senão sua efemeridade singular?
Todas as dores do mundo viram pó, diante da interrupção de tudo: o inefável. Contas atrasadas, amores traídos, reuniões semana que vem, dentista, manicure, o Imposto de Renda.
“Carnaval foi em fevereiro e tem gente que ainda está no ritmo”.
Somente as fatalidades têm força suficiente para nos arrebatar da letargia. E nos gritar aos ouvidos: a vida é um segundo só!
A cada baque, recordo que é preciso respirar mais devagar. Prestar mais atenção nos outros. Tolerar cada particularidade. E que tenho estado em mais enterros do que gostaria.
A existência é uma contradição em si. Quem pode levar a vida a sério, se ninguém sai dela vivo?
Tenho impressão de que Ferreirinha já havia intuído isto.
Outro dia, jogando dominó. A contar causos, como o do brotinho de sessenta e cinco anos que só tem um dente, a quem ele prestava assistência regular, “só na fricção”. Chamando Dona Sônia, Xiquinha, Zequinha... porque os nomes não importam.
Ontem ali, deitado, como quem dorme. Personagem principal da festa funesta.
A rua de terra. Nenhumas árvores. O imenso, verde e baldio terreno em frente. Essa inarrável multidão amontoada sob o aracajuano sol. Uma ruma de táxis estacionados. As beatas entoando o lamento lúgubre. Matizes de um trópico triste. Adiante, uma partida de futebol, vale notar a irônica cor dos times: os vermelho-e-branco contra os branco-e-vermelho.
Pouco antes da saída do féretro, pára na porta uma velha Belina marrom. A porta de trás aberta, deixando à vista um botijão de gás aquecendo o óleo da fritura; as caixas de som no teto anunciavam: “uma bateria de carro velha vale cinco churros, um ventilador velho vale três churros, um motor de geladeira vale quatro churros, um chuveiro elétrico vale dois churros, um ferro de passar...”
Onde a alma de Ferreirinha estivesse, estava rindo: “tô furando certinho?”
Passado o susto, a dor estampada nas lágrimas de Marcinha, de Dona Nida, dos amigos, passada minha descrença no improvável, que foi abatida quando olhei sob o vidro do ataúde:
Imagino Ferreirinha entrando no céu:
- Com licença, São Raimundo.
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Ferreirinha. Você não precisa pedir licença.
Apud Manoel Bandeira.
Os quatro cavaleiros do após KY.

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
Marx, no 18 de Brumário.
Permitam-me uma digressão absolutamente farsesca, uma vez que esse blog não tem nenhum compromisso com a seriedade. Ouvi de Prestes, uma vez: “se você quiser um dia negar Marx, experimente citá-lo, editando.”
Está em Isaías, 40, 3: “Uma voz clama: preparai no deserto o caminho do Senhor”. (Deserto = do grego “eremos” = lugar inóspito, seco) Os Evangelistas concluem que essa voz, que testemunharia a vinda do Messias só pode ser a de João, o Baptista: “João veio por todos os arredores do Jordão proclamando um batismo de metânoia (= mudança essencial de pensamento ou de caráter)” (Lc 3, 3). E é o próprio João que o diz em Mateus 3, 11: “Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as alparcas”. Ora, João? Da água? Não é digno de levar as sandálias do que vem após? Já ouvi essa história...
Seguindo, na última página do último livro da coletânea acima: “sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã. E o Espírito e a noiva dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida”. (Ap, 22, 16-17) Resplandecente estrela da manhã? Espírito e noiva, como líder e povo? Quem ouve, diz vem, muda? A água da vida para quem tem sede? Hmmmm
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Após abertos os selos, ou as urnas, será o fim de uma era. Início de outra. Alvíssaras – o sertão não virará mar. E haverá mais cabeças e menos chapéus, de couro.
Mas antes disso, quatro cavaleiros montados em camelos virão, dois do sul e dois do centro. A anunciar as boas novas: “Vamos rapaaaaaaaaaaaaaaaaazes!”
Beto-Alô-Houston-Surfistinha veio do sul, onde se chia. Assumiu Zé. Sim, porque não basta fazer barba. Tem que fazer cabelo e bigode. Igual meus amigos Patrícia e Lobinho no prêmio Banese. Com aquele jeito pisciano de ser, ele vai tocando, se relacionando, sensivelmente sentindo, sondando, propondo, discutindo roteiros. E fazendo programas consistentes que têm obrigado à adversária baixar o nível.
Xima, The Voice, é o homem dos mil e um humores. Ele comemora, critica, sorri, empolga, emociona, espanca, declina. Se Beto é sensibilidade in, Xima é sensibilidade out. Foi o primeiro a encantar e a seduzir a todos na produtora. Ele tem mil faces na sua voz. Conhecidas e identificáveis ou absolutamente inventadas e surpreendentes. Do Lula ao Sïlvio. Do grito feminino de terror ao velho sertanejo rabugento: “Dineeeeeiiii! Minino maluvido!” E, pela voz, emprenha nossos ouvidos e nos toma de carinhos.
Pauly é foda! É até difícil escrever sobre ele. Só chamando de filho-da-puta pra cima. Rapaz, há muitos anos ninguém consegue me emocionar tanto quanto esse cabrunco. E olha que eu não estou falando do puta profissional que esse cidadão é, porque isso já virou lugar-comum em Aju. Ouvir Pauly falar de som, e fazer o som, é como ouvir um físico brilhante explicar o que é um quadrado vermelho, uma bola azul ou um triângulo amarelo com projeção de figuras, todo mundo entende. Mas depois, quando o trabalho cessa, quando encorpora o homem que se relaciona com amigos, aí precisa de widescreen e Dolby 5.1 pra Pauly caber. Não quero entrar aqui nos detalhes que me fizeram chorar várias vezes ouvindo o Pauly. Seja por causa da profundidade de seu sentido trágico. Seja em função da graciosidade mineira de seu sentido cômico. Mas tem que ficar de olho nesse cara na fila pro céu e pro inferno. E para onde ele for, ir atrás, pq lá será mais intenso.
Bom, eu sou esse que vos escreve. Não vou falar de mim que vira cabotinismo. Mas repetir, para evitar piadas velhas e cansadas, não custa. Vespa NÃO se defende com o rabo, dá ferroadas também. Vespa NÃO está só voando ou fazendo cera, faz seu melzinho e é caçador agressivo. Vespa NÃO é só marca de lambreta e de privada, também é marca de amigo e camarada, daqueles que só o tempo e o afeto mostram como a gente pode confiar.
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Consigna o Houaiss, ipsis litteris: Saldunes. Substantivo masculino plural. Entre os antigos gauleses, aqueles que faziam juramento de eterna amizade, marchando para as lutas ligados por uma corrente, visto que nem a morte deveria separá-los.
Pois, se esta campanha é uma guerra e, além dessa, outras vai haver pra defender a vida e a liberdade, é com esses companheiros que eu quero marchar, porque tenho certeza que se eu vier a morrer na luta, as walküre vêm me buscar e me levar feliz, em seus braços, direto para o Valhalla.