Monday, September 25, 2006

Morte: uma tremenda “falta de absurdo”.


“Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe?”
Monólogo de Hamlet, Shakespeare, tradução de Machado de Assis.




Estou convencido que o único sentido da vida é a expressão do trágico.

Qual o valor da abelha colhendo pólen, do Sol coroando a assustadora madrugada, da onda que quebra uma única vez na areia, senão sua efemeridade singular?

Todas as dores do mundo viram pó, diante da interrupção de tudo: o inefável. Contas atrasadas, amores traídos, reuniões semana que vem, dentista, manicure, o Imposto de Renda.

Carnaval foi em fevereiro e tem gente que ainda está no ritmo”.

Somente as fatalidades têm força suficiente para nos arrebatar da letargia. E nos gritar aos ouvidos: a vida é um segundo só!

A cada baque, recordo que é preciso respirar mais devagar. Prestar mais atenção nos outros. Tolerar cada particularidade. E que tenho estado em mais enterros do que gostaria.

A existência é uma contradição em si. Quem pode levar a vida a sério, se ninguém sai dela vivo?

Tenho impressão de que Ferreirinha já havia intuído isto.

Outro dia, jogando dominó. A contar causos, como o do brotinho de sessenta e cinco anos que só tem um dente, a quem ele prestava assistência regular, “só na fricção”. Chamando Dona Sônia, Xiquinha, Zequinha... porque os nomes não importam.

Ontem ali, deitado, como quem dorme. Personagem principal da festa funesta.

A rua de terra. Nenhumas árvores. O imenso, verde e baldio terreno em frente. Essa inarrável multidão amontoada sob o aracajuano sol. Uma ruma de táxis estacionados. As beatas entoando o lamento lúgubre. Matizes de um trópico triste. Adiante, uma partida de futebol, vale notar a irônica cor dos times: os vermelho-e-branco contra os branco-e-vermelho.

Pouco antes da saída do féretro, pára na porta uma velha Belina marrom. A porta de trás aberta, deixando à vista um botijão de gás aquecendo o óleo da fritura; as caixas de som no teto anunciavam: “uma bateria de carro velha vale cinco churros, um ventilador velho vale três churros, um motor de geladeira vale quatro churros, um chuveiro elétrico vale dois churros, um ferro de passar...”

Onde a alma de Ferreirinha estivesse, estava rindo: “tô furando certinho?

Passado o susto, a dor estampada nas lágrimas de Marcinha, de Dona Nida, dos amigos, passada minha descrença no improvável, que foi abatida quando olhei sob o vidro do ataúde:

Imagino Ferreirinha entrando no céu:
- Com licença, São Raimundo.
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Ferreirinha. Você não precisa pedir licença.
Apud Manoel Bandeira.

Thursday, September 21, 2006

Os quatro cavaleiros do após KY.



Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
Marx, no 18 de Brumário.

Permitam-me uma digressão absolutamente farsesca, uma vez que esse blog não tem nenhum compromisso com a seriedade. Ouvi de Prestes, uma vez: “se você quiser um dia negar Marx, experimente citá-lo, editando.

Está em Isaías, 40, 3: “Uma voz clama: preparai no deserto o caminho do Senhor”. (Deserto = do grego “eremos” = lugar inóspito, seco) Os Evangelistas concluem que essa voz, que testemunharia a vinda do Messias só pode ser a de João, o Baptista: “João veio por todos os arredores do Jordão proclamando um batismo de metânoia (= mudança essencial de pensamento ou de caráter)” (Lc 3, 3). E é o próprio João que o diz em Mateus 3, 11: “Eu, na verdade, vos batizo em água, na base do arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, que nem sou digno de levar-lhe as alparcas”. Ora, João? Da água? Não é digno de levar as sandálias do que vem após? Já ouvi essa história...

Seguindo, na última página do último livro da coletânea acima: “sou a raiz e a geração de Davi, a resplandecente estrela da manhã. E o Espírito e a noiva dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida”. (Ap, 22, 16-17) Resplandecente estrela da manhã? Espírito e noiva, como líder e povo? Quem ouve, diz vem, muda? A água da vida para quem tem sede? Hmmmm

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Após abertos os selos, ou as urnas, será o fim de uma era. Início de outra. Alvíssaras – o sertão não virará mar. E haverá mais cabeças e menos chapéus, de couro.

Mas antes disso, quatro cavaleiros montados em camelos virão, dois do sul e dois do centro. A anunciar as boas novas: “Vamos rapaaaaaaaaaaaaaaaaazes!”

Beto-Alô-Houston-Surfistinha veio do sul, onde se chia. Assumiu Zé. Sim, porque não basta fazer barba. Tem que fazer cabelo e bigode. Igual meus amigos Patrícia e Lobinho no prêmio Banese. Com aquele jeito pisciano de ser, ele vai tocando, se relacionando, sensivelmente sentindo, sondando, propondo, discutindo roteiros. E fazendo programas consistentes que têm obrigado à adversária baixar o nível.

Xima, The Voice, é o homem dos mil e um humores. Ele comemora, critica, sorri, empolga, emociona, espanca, declina. Se Beto é sensibilidade in, Xima é sensibilidade out. Foi o primeiro a encantar e a seduzir a todos na produtora. Ele tem mil faces na sua voz. Conhecidas e identificáveis ou absolutamente inventadas e surpreendentes. Do Lula ao Sïlvio. Do grito feminino de terror ao velho sertanejo rabugento: “Dineeeeeiiii! Minino maluvido!” E, pela voz, emprenha nossos ouvidos e nos toma de carinhos.

Pauly é foda! É até difícil escrever sobre ele. Só chamando de filho-da-puta pra cima. Rapaz, há muitos anos ninguém consegue me emocionar tanto quanto esse cabrunco. E olha que eu não estou falando do puta profissional que esse cidadão é, porque isso já virou lugar-comum em Aju. Ouvir Pauly falar de som, e fazer o som, é como ouvir um físico brilhante explicar o que é um quadrado vermelho, uma bola azul ou um triângulo amarelo com projeção de figuras, todo mundo entende. Mas depois, quando o trabalho cessa, quando encorpora o homem que se relaciona com amigos, aí precisa de widescreen e Dolby 5.1 pra Pauly caber. Não quero entrar aqui nos detalhes que me fizeram chorar várias vezes ouvindo o Pauly. Seja por causa da profundidade de seu sentido trágico. Seja em função da graciosidade mineira de seu sentido cômico. Mas tem que ficar de olho nesse cara na fila pro céu e pro inferno. E para onde ele for, ir atrás, pq lá será mais intenso.

Bom, eu sou esse que vos escreve. Não vou falar de mim que vira cabotinismo. Mas repetir, para evitar piadas velhas e cansadas, não custa. Vespa NÃO se defende com o rabo, dá ferroadas também. Vespa NÃO está só voando ou fazendo cera, faz seu melzinho e é caçador agressivo. Vespa NÃO é só marca de lambreta e de privada, também é marca de amigo e camarada, daqueles que só o tempo e o afeto mostram como a gente pode confiar.

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Consigna o Houaiss, ipsis litteris: Saldunes. Substantivo masculino plural. Entre os antigos gauleses, aqueles que faziam juramento de eterna amizade, marchando para as lutas ligados por uma corrente, visto que nem a morte deveria separá-los.

Pois, se esta campanha é uma guerra e, além dessa, outras vai haver pra defender a vida e a liberdade, é com esses companheiros que eu quero marchar, porque tenho certeza que se eu vier a morrer na luta, as walküre vêm me buscar e me levar feliz, em seus braços, direto para o Valhalla.

Wednesday, September 13, 2006

Bob Esponja vive no fundo do mar.


Aprendi isso quando fui pesquisar quem, afinal, é essa simpática personagem. Não só no fundo do mar, como na Fenda de Bikini. Pense se existe coisa melhor do que morar numa Fenda de Bikini!?

No fundo do mar, as ondas chegam pelo líquido. E a sensibilidade atinge distâncias inimagináveis. Experimente mergulhar a cabeça no oceano, quando um barco passa ao largo. A noção de distância se confunde: o longe fica perto.

Assim é o Rafael. Capaz de sentir coisas que nós, outros humanos, levamos um pouco mais de tempo para perceber.

O meu primeiro contato com ele: nos conhecemos tchum e comecei a trabalhar. Pesquisa no Google, sei lá, sobre Micareta Picareta. Entre as cinco primeiras opções de conteúdo lá estava o blog do Rafael. Link aí do lado. Diga-se de passagem, a melhor argumentação que achei. Até aí tudo bem. Era um assunto local e talicoisa.

Aí fui procurar outra matéria, não me lembro o que. E o Google aponta para onde? O blog do Rafael. OK, coincidência, sicronicidade... Terceira pesquisa, dessa vez, sobre a letra da música “as águas vão rolar”. Adivinhe quem estava lá na primeira página!? Faça a experiência você mesmo.

Rapaz, três raios não caem no mesmo lugar em tão pouco tempo. Há não ser que ali exista um competente pára-raios. Rafael Galvão, muito prazer.

Esse jeitinho manso que precede seu conteúdo, foi o que me fez lembrar do Bob Esponja, a quem só conhecia da imagem simpática. Fui pesquisar pra descobrir se ele era do mal, feito o Bip-bip, o Jerry, o Picapau e descobri isso: “o Presidente George W. Bush assim que assistiu o filme do Bob proibiu seus netos de assistirem a série, pois acredita que Bob Esponja não passa de uma esponja "gay", ao saber dessas declarações o criador do desenho Stephen Hillemburg ficou muito nervoso e disse que o personagem nunca seria homossexual e a sua única função é divertir as crianças e jovens que o assiste.”

Rafa, se o Bush não gosta do Bob Esponja, alguma coisa de bom o Bob Esponja tem! Só que até o nosso Lula Molusco é melhor que o deles.

Friday, September 08, 2006

Angel com R de RRRRR


Rádio, na campanha, começa com R de Rangel. Nas suas palavras escolhidas, no seu ouvido apurado, na experiência.

Já sergioca ou cariopano, Rangel é companheiro que divide a sala comigo, diuturnamente. Não fosse essa questão espacial de proximidade, não fosse nossa origem migratória forasteira comum, minha afinidade por ele se daria pela sensibilidade.

Não vê? O sorriso fácil, o cumprimento afetuoso, as dicas, os convites, o carinho: são provas incontestes desse espírito que pulsa. E vivo, dói. Mas sabe-se Sísifo, e se imagina feliz. Descendo todo dia para buscar a pedra e empurrá-la, de novo, monte acima.

É só olhar em volta, para perceber como Rangel é querido. E, às vezes, contra a luz que vaza da cortina de sua janela, chego a ver uma aura que parece um par de asas.

Mas ouça-se o teclado cantando, enquanto rangem as engrenagens no cérebro entre os headphones, e sabe-se que ali é destilada verdadeira maldade. Mal que combate o mal vira bem. É quando aparece, profissional, o rabinho. E o rugido RRRRRRRRRRR!

Rangel da cultura. Rangel da arte. Rangel da formação de seus alunos. Rangel jornalista. Rangel amante da música. Rangel de seus amigos. Rangel da mesa ao lado, com quem tenho orgulho em trabalhar.

Thursday, September 07, 2006

Sidarta sob a árvore Bodhi



Olhando de fora a gente pensa: será que o Júnior é um cara estressado? Será que ele tem problemas, angústias, contas para pagar?

A impressão que fica, na paz que ele passa, é que não. Se os há, são lá dele. Nada é comunicado, se não tranqüilidade.

Sentado em sua cadeira alta, ali está ele. Trabalhando, produzindo, materializando uma das partes mais importantes do desafio que é o produto final. Sempre zen: quantas vezes tenha de mostrar de novo a mesma cena, sorrisos só.

Nas gavetas e armários? Biscoitos e guloseimas. A satisfação garantida é que dá aos gordinhos, esse ar generoso, confiável. Não é à toa, a imagem do Buda que nos chegou.

Júnior fica ali. A espera da iluminação que vem. E já está chegando, reparem o brilho de seu olho. O caminho do meio é a mudança. E a árvore Bodhi, aqui, o sorriso de Déda.

Wednesday, September 06, 2006

Lobinho de Hamellin



Paulinho podia ser um músico de Bremen. (Ele não é um gato?) O herói das letras e melodias. A espantar os ladrões. Hi-hooo, auau, miau, cocoró-có! Mas os ladrões são persistentes. Não largam, assim, a cumbuca.

Paulinho podia, então, ir cantando e tocando e atraindo os ratos para o Atlântico. Mas os ratos abandonam os navios, primeiro.

Daí que o jeito foi Paulinho cantar a mudança. E atrair a onda do bem. A imensa onda do bem, no som da sua voz e das suas cordas. Abrindo o coração das pessoas, pro novo tempo que chega.

Pense numa sintonia!

Tô eu, quase meia noite no GBarbosa, na prateleira de Teacher’s, quem é que estica o braço junto com o meu para apanhar uma garrafa? Teacher Paulinho Lobo. Diga-me com quem bebes, que eu te direi se vou com você.

Pois vou com você, Paulinho. Vá cantando a mudança na frente, que essa multidão avança junto, bebendo suco de melancia.

Um brinde a ter te conhecido, pessoa boa!

Wednesday, August 30, 2006

As Meninas Super Poderosas.




Nhá Loísa que me perdoe, sei que, por primazia, certo lugar é dela. Tá gravado. Mas diante do abraço das duas, não resisti. Até porque, Nhá Loísa já me parece mocinha. Não mais menina. Super Poderosa, sim. Porque vem do útero do espírito. Mas mocinha. Coisas da mudança. Vejo uma maturidade crescente.

Essas três queridinhas aí de cima, não que não sejam mocinhas, também o são. Mas mantém, também, um quê de meninas. E ajudam o Prefeito a salvar a cidade. Aliás, agora, a salvar o estado todo.

Não sei no desenho.

Mas aqui, uma é Lindinha, outra é Docinho e a outra é Florzinha. Agora qual é qual, você decide. Porque elas se revezam o tempo todo.

Esses dias vi a foto de uma índia. Queimada, de cabelo comprido. Lindona. Concluí que a Lindinha era Celiene. Mas fiquei com dúvidas. Porque cada vez que a gente passa uma pauta, um problema para ser resolvido, uma pendência, ela responde tão tranqüila, tão carinhosa que talvez ela seja a Docinho. Só que quando chego de manhã e, antes de subir a escada, ela está lá no seu trono majestosa enfeitando a WG, concluo que ela é a Florzinha.

Aí Carol me abre um sorriso daqueles de derreter Picuí. E eu fico em dúvidas. O jeitinho um tico tímido. Aquele ar de menina, com olhinho que brilha. Completado pelo jeito de quem faz e sabe que faz. A profissional responsável. Almoço com ela na minha frente e não me resolvo: ela é Docinho, Florzinha ou Lindinha??

Verinha conheci na primeira passeata. Aquele cabelo vermelho chama a atenção. Pronto, pela cor ela é a Florzinha. Mas e esse jeito carinhoso? A dedicação ao Candidato? A profissão igual a da minha filha? A simpatia permanente estampada na bela face? Ai, ai, ai.

Pronto, resolvi o seguinte. Façamos uma Eleição. E vamos ganhá-la todos.

Porque aqui já está decidido. É rodízio. As três Super Poderosas são simultaneamente Docinho, Lindinha e Florzinha. E inda sobra lugar pra Eloisinha.